Antes de trabalhar a partir de casa, a minha rotina era clara: sair de manhã, chegar ao escritório, trabalhar, voltar ao fim do dia. A casa era o sítio onde se descansava. O trabalho era outro lugar. Essa separação física criava, sem eu dar por isso, uma separação mental.
Quando passei a trabalhar exclusivamente a partir de casa, essa fronteira desapareceu. A secretária passou a estar na sala. O ecrã passou a ser a primeira coisa que via de manhã e a última que via à noite. O telemóvel nunca estava longe. Durante meses não notei o impacto. Depois comecei a sentir que os dias se misturavam de uma forma que me deixava menos presente em ambos os lados.
A descoberta do espaço
A primeira mudança real aconteceu quando mudei a secretária de sítio. Antes estava virada para uma parede. Depois coloquei-a perpendicular à janela. De repente, quando levantava o olhar, via o exterior em vez de uma parede branca. Parecia uma alteração pequena. Não era.
Comecei a notar a luz ao longo do dia. Comecei a notar quando o sol batia no ecrã e me forçava a franzir o olhar. Comecei a notar que, depois de várias horas seguidas, o corpo pedia movimento e o olhar pedia distância. Estas observações só surgiram porque o espaço de trabalho e o espaço de vida passaram a ser o mesmo.
Trabalhar a partir de casa não é apenas mudar o local. É mudar a relação com o tempo e com o espaço.
Os hábitos que foram surgindo
Com o tempo, alguns gestos tornaram-se recorrentes. Organizar a secretária de forma a ter mais distância visual. Colocar plantas no peitoril e na secretária para ter pontos verdes onde o olhar possa pousar. Sair de manhã sem fones para o primeiro contacto do dia ser com o exterior e não com um ecrã. Reduzir a luz artificial ao fim do dia para criar uma transição clara entre o modo de trabalho e o modo de descanso.
Nenhum destes hábitos nasceu de um plano elaborado. Nasceram da necessidade de tornar o dia mais legível. Quando a casa e o trabalho se misturam, os limites têm de ser criados de outra forma — através de rituais, de luz, de movimento e de pequenos gestos repetidos.
Porquê escrever sobre isto
Escrevo porque me apercebi de que muitas pessoas que trabalham a partir de casa passam pelas mesmas dificuldades silenciosas: o cansaço do olhar, a sensação de que o dia nunca acaba, a dificuldade em “desligar”. Não ofereço soluções universais. Ofereço apenas o registo do que funcionou para mim e do que não funcionou.
Se alguma coisa do que escrevo te ressoar, fico contente. Se quiseres partilhar a tua própria experiência de trabalhar a partir de casa, a página de contacto está aberta. E se nada disto fizer sentido para ti, também está tudo bem. Cada pessoa encontra o seu próprio ritmo.
Obrigado por teres lido até aqui.
— Kevin Ooms